quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Aristides Pereira: o descanso de um dos pais de África

Aos 79 anos, Aristides Pereira considera-se um homem feliz. Olha para trás e valeu a pena. Respira serenidade e transmite a calma de um homem realizado, cuja vida lhe deu muito mais do que aquilo que alguma vez imaginou. Por detrás de uns óculos grandes, o olhar risonho diz isto e muito mais. As gargalhadas que por vezes solta nada tiram à sua natural distinção.

A voz, os gestos, o andar condizem com a grandeza e a confiança de quem acreditou no nascimento de um país que muitos consideravam não poder existir: Cabo Verde. O primeiro Presidente da República, em vez de Amílcar Cabral, acredita que África tem motivos para ter esperanças.
Foi um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) de Amílcar Cabral, depois secretário-geral do partido e finalmente primeiro Presidente da República de Cabo Verde entre 1975 e 1991. Apesar da derrota pessoal, a alternância política, nas primeiras eleições pluralistas de Cabo Verde, é vista como uma etapa vitoriosa da democratização do seu país e do percurso do líder que conduziu o partido de forma que muitos não hesitam em qualificar de exemplar. Com Amílcar Cabral como "figura tutelar", mas sempre com o seu estilo próprio, diz que foi empurrado para a política pela força das circunstâncias; primeiro pela urgência de lutar contra a injustiça e a repressão das autoridades coloniais, mais tarde pelo dever de suceder ao líder histórico assassinado em 1973. Forçado pelo golpe de Estado na Guiné-Bissau, em 1980, a assumir o fim da união dos dois "países irmãos", Aristides Pereira manteve-se até 1991 secretário-geral de um partido, o PAICV, que passa então a representar apenas Cabo Verde. Hoje, a partir de um escritório da Cidade da Praia, continua a trabalhar em prol dos interesses dos cabo-verdianos junto dos organismos internacionais. Este ano vai publicar, primeiro em Cabo Verde, depois em Portugal, uma obra intitulada "Uma luta, um partido, dois países — Contribuição para o Património Histórico da Luta de Libertação Nacional da Guiné e Cabo Verde", sempre certo de que "nada foi como se Amílcar Cabral estivesse vivo". A publicação deste livro trouxe Aristides Pereira mais uma vez a Portugal, que conhece bem. A sua predilecção pelas "águas especiais das Termas dos Cucos, muito raras nos países da Europa", levam-no vezes suficientes à região de Torres Vedras para aí ter casa própria, um apartamento.
Quando despertou em si o interesse pela política?
Eu costumo dizer que fiz política sem ser político. O que me levou à política foi a situação de humilhação, de exploração do povo caboverdiano e as injustiças do sistema colonial. Na minha geração, começou a ganhar-se absoluta consciência da obrigação que tinham os cabo-verdianos de lutar contra essa situação de injustiça. Nunca sonhei, enquanto jovem, qualquer coisa que se parecesse com a política. Era qualquer coisa que estava fora dos meus parâmetros.
Com que idade começou a tomar consciência dessa situação?
O meu pai era um seminarista, formado no Seminário Liceu de São Nicolau, na altura o único estabelecimento secundário que existia em Cabo Verde e foi colocado como padre na Boavista apesar de ser natural da ilha de Santiago. Ele fazia parte de uma geração muito ligada à literatura, à cultura ocidental ou portuguesa. Nessa altura, não havia aviões, os barcos eram raros e os que havia eram à vela. Era assinante do "Diário de Notícias", e cada vez que chegava um barco, normalmente uma vez oor mês. sentava-se a ler os jornais todos de uma vez. Das coisas que me interessavam mais eram os jornais. Via o meu pai a ler e queria ler também.
Mas determinante para a minha tomada de 'consciência foi a ida com a minha irmã, 20 anos mais velha do que eu, para a vila onde o meu pai tinha uma das duas paróquias e onde mantinha um apartamento, apesar de viver na povoação onde nasci. Em 1928, era eu um garoto de 5 ou 6 anos, quando se deu a grande viragem provocada por Salazar e as mudanças em Portugal, altura em que aparecem deputados portugueses nas diversas ilhas. No prédio onde eu morava, instalou-se um major português com a mulher e as cinco filhas. A família engraçou com esse miúdo que era eu; o major gostava muito de falar comigo sobre a situação que se vivia em Portueal. Naauela altura estudávamos toda a geografia de Portugal, a Mãe Pátria. Mas custava-me a compreender essa Pátria, lá longe. Ele então falava muito sobre isso, das injustiças em Portugal. Fazia-me compreender, apesar de eu ser muito criança ainda, que também era contra o sistema colonial. A partir daí desenvolvese todo esse espírito.Nessa idade, o que queria ser?
Depois de começar a estudar no liceu, a minha ideia era ser médico cirurgião. Mas foi completamente impossível. Na altura em que terminei o liceu, apareceram as bolsas de estudo. Mas duas apenas. Uma delas, aliás, foi utilizada por Amílcar Cabral. Pensei arranjar dinheiro para vir até Portugal mas depois como era uma família numerosa e eu era o 14° filho - o mais novo - fui para o liceu já um pouco tarde. O liceu só apareceu nos anos 30, e era preciso que os meus irmãos mais velhos fossem primeiro, antes de chegar a minha vez.
Nasceu na ilha da Boavista, mas frequentou o Liceu em São Vicente...
Sim, ia de barco à vela, nos "saluchos", para lá. Uma vez cheguei a demorar uma semana de Sáo Vicente para a Boavista, devido às calemas, época do ano em que não há vento.
Lamenta não ter seguido essa vocação de médico cirurgião?
Não, porque o percurso que depois tive compensa-me bastante. Sinto-me privilegiado. Tive a oportunidade de conhecer o sistema colonial "puro e duro". Engajar-me na luta contra esse mesmo sistema. E sair vitorioso dessa luta. Depois disso, conseguir edificar um país que, à partida, estava condenado, do ponto de vista da viabilidade económica. Na primeira visita das Nações Unidas, FMI e Banco Mundial a Cabo Verde, ainda durante o Governo de transição de 1975, a delegação concluiu que o país não tinha viabilidade. De maneira que, para nós, foi dos maiores desafios, partindo de uma situação abaixo do zero, conseguirmos edificar um Estado viável, com instituições que funcionam, e que, neste momento, avança no sentido político, económico e cívico. Sinto-me privilegiado, pois agora que estou liberto de toda essa actividade, vejo que valeu a pena. Sinto-me absolutamente realizado.
E essa é uma das razões por que nunca deixou de viver em Cabo Verde?
Com certeza. Era de esperar que nós, após 15 anos de poder, em que fizemos o país avançar para um sistema de pluralismo político, perdêssemos as eleições e muito naturalmente perdemos e eu perdi. Mas penso que isso só vem em nosso abono, pois mostrámos que o que queríamos era essa alternância e o desenvolvimento do espírito cívico. O poder é algo que se tem que utilizar em benefício da maioria, pelo menos dos mais desfavorecidos. Foi nessa perspectiva que escolhi não sair do país depois da derrota de 1991, ao contrário do que algumas pessoas previam que eu fizesse. E nesse sentido, sinto-me privilegiado, realizado. Na idade em que estou posso até dizer que sou um homem feliz.
Como é que esse adolescente que começou a sensibilizar-se para a política se tornou no sucessor de Amílcar Cabral?
Essa adolescência não foi nada fácil devido à própria época que nós vivíamos em Cabo Verde. Eu vivi de maneira consciente duas grandes crises das fomes, já adolescente e depois adulto, em que as pessoas morriam de fome. Refiro-me às duas grandes fomes de 1939/40 e mais tarde à de 1947/48. Sem chuva, não havia produção agrícola. Como a maioria da população era campesina, as pessoas morriam à fome, face a uma quase total indiferença do governo central. Apesar de haver alguns governadores, com uma certa formação, que chamavam a atenção para o que achavam não estar certo, o governo central não reagia nem dava os meios necessários para se fazer face à situação. Nessa altura, Cabo Verde tinha 240 mil habitantes e nas duas crises morreram cerca de 40 mil. Eu assisti a tudo isso e náo há duvida que foi um dos factores que mais me revoltaram.E os outros?
O próprio sistema de dominação. Aproveitando-se dessa situação de desespero dos camponeses, o governo central tentava resolver o problema que tinha nas grandes plantações de São Tomé e Angola. Nessa altura, já existiam grandes interesses nessas duas colónias mas havia um problema de mão-de-obra, porque o nativo em São Tomé ou Angola não trabalhava facilmente por conta de outrem. Tinha o seu pedaço de terra, trabalhava, havia frutos silvestres e peixe à vontade. Não havia pressão, porque não havia fome. Então criaram-se os chamados Comissariados de recrutamento em Cabo Verde na altura das crises. Principalmente nas ilhas agrícolas de Santo Antão ou São Nicolau, onde as pessoas estavam desesperadas; aparecia então o comissário, a prometer trabalho e comida a quem fosse para São Tomé. As pessoas no seu desespero faziam um contrato miserável. Eram levadas para o porto de ligação na ilha de São Vicente e quando havia gente suficiente, as mil ou duas mil pessoas, aí concentradas, eram transportadas em barcos como se fossem gado, dentro dos porões de cargueiros, para Angola e São Tomé e Príncipe. Assisti a isto em São Vicente, em 1939. Assisti a isto na Cidade da Praia, em 1947/48. E ver tudo isto marcou-me imensamente. Era algo extremamente revoltante, ver a nossa gente.
O resto do população como vivia?
Também nós, a camada média da população, que conseguia comer, não tinha uma situação brilhante, porque Cabo Verde era a colónia onde os funcionários eram mais mal pagos. E a única saída de um estudante do liceu, num país que não produzia nada, era o funcionalismo. Mais uma vez, as autoridades coloniais aproveitavam-se dessa situação e pagavam muito pouco, o que dava lugar a que o funcionário cabo-verdiano procurasse sair, para Angola, Moçambique ou Guiné. Mesmo na Guiné-Bissau pagavam melhor. Fui para a Guiné ganhar mais de 1000 escudos quando em Cabo Verde ganhava 481 escudos. Cheguei a Bissau tinha 25 anos.
Quando conheceu Amílcar Cabral?
Conheci-o, antes disso, na Cidade da Praia, quando eu era funcionário público, e ele estava à espera da bolsa de estudo. Já nessa altura, ele era um jovem fora de série. Fazia programas subversivos, na emissora Rádio Clube fundada nessa altura por um grupo privado; de uma certa maneira, apadrinhada pelo próprio governador de Cabo Verde. Cabral propunha programas, que chamavam a atenção para muitas questões, principalmente a questão da fome, até ao dia em que lhe disseram que ele era subversivo.
E depois, como é que as coisas aconteceram?
O nosso reencontro deu-se na Guiné-Bissau, já depois de ele concluir o Curso de Agronomia e com as ideias bem claras, devido à experiência que adquirira em Portugal, com os contactos com nacionalistas de outras colónias portuguesas, como Mário de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos (este último seu companheiro de quarto em Lisboa). Chega então a Bissau à procura de gente que valesse a pena contactar, com a ideia de mobilizar as pessoas. E foi através de uma senhora portuguesa, comunista, vizinha da casa onde uma das minhas irmãs vivia, que nos conhecemos. A partir daí as minhas relações com o Amílcar ficaram mais ou menos estabelecidas, embora em condições muito especiais, devido à conjuntura que vivíamos. Só chegámos a relações de facto abertas, com trocas de impressões francas, depois de estarmos na Guiné-Conacri.De entre o núcleo de fundadores do partido, como foi escolhido para suceder a Amílcar Cabral?
Houve uma série de circunstâncias do próprio desenvolvimento da luta que contribuíram para isso. Chegámos a um ponto em que náo havia possibilidade de uma acção política, na Guiné-Bissau, sem se ir parar à cadeia. Tínhamos de estar fora. Entretanto, com a independência da Guiné-Conacri, e face aos discursos engajados do Presidente Sékou Touré, que dizia que a Guiné-Conacri não seria livre enquanto houvesse uma parcela de África sob dominação colonial, Amílcar decide instalar-se em Conacri, com o secretariado do partido. O secretariado era ele, só.
Mais tarde, dos militantes do partido em Bissau, o primeiro a chegar a Conacri fui eu. Durante muito tempo, estivemos praticamente os dois sozinhos. Isso deu lugar a um conhecimento recíproco muito grande, ficando automaticamente muito próximos um do outro. Depois junta-se a nós Luís Cabral, o irmão, chamado a dar cobertura no Senegal, quando o presidente Senghor se queixou que não colocávamos nenhum responsável de alto nível no Senegal com quem as autoridades pudessem dialogar. Luís Cabral passa então para lá, embora permaneça junto à fronteira.
Assim, e durante todo este tempo, quem esteve permanentemente como sombra de Amílcar Cabral fui eu, o que veio a condicionar muita coisa. Conacri era o nosso primeiro centro, do ponto vista logístico, militar mas não só. E o facto de estar em Conacri, também me proporcionou desenvolver conhecimentos muito mais vastos e alargados de todo o pessoal engajado na luta. Chegou o dia de uma visita programada à China que Amílcar Cabral não podia fazer.
Então para satisfazer os chineses, que nos ajudaram bastante nessa altura, criámos o posto de secretário-geral adjunto. E foi com esse rótulo que fui para a China! Todas essas circunstâncias concorrem para que, quando se dá o desaparecimento físico de Cabral, eu apareça como seu sucessor, não como sucessor natural. Cabral para mim era insubstituível. Não há dúvida nenhuma também que era preciso que alguém assumisse essa direcção e todas as opiniões convergiam para a minha pessoa. O partido não podia marchar sem cabeça.
E sentiu sempre, ao longo do seu percurso como líder do PAIGC, presidente de Cabo Verde, e depois líder do PAICV, a presença tutelar de Amílcor Cabral?
Com certeza, embora eu tivesse sempre o cuidado de não o imitar. Procurei fazer o melhor possível dentro daquilo que eu conhecia do pensamento dele mas com um estilo próprio.
Alguma vez foi preso?
Nunca fui preso. Mas a repressão era extrema em Cabo Verde, onde não havia luta armada. Havia a intenção da libertação das ilhas, mas não era fácil, devido à situação geográfica. Os próprios militantes cabo-verdianos nem sempre compreendiam isso. Alguns deles chegaram a ser presos, maltratados, mas não chegavam a entender por que razão o PAIGC não desembarcava para libertar o arquipélago daquela situação. Estávamos preparados. No entanto, com a forte repressão da PIDE tornava-se impossível o desembarque, não havendo por isso condições para se declarar unilateralmente a independência, ao mesmo tempo que a Guiné-Bissau, em 1973.Na cerimónia da independência de Cabo Verde, a S de Julho de 1975, o Comandante Pedro Pires, escolhido por si para primeiro primeiro-ministro do país, e que chegou hoje a Presidente de Cabo Verde, elegeu a modéstia, a honestidade, e a firmeza de carácter como as suas três principais qualidades. Considera estes atributos indispensáveis para o bom desenrolar do processo?
Havia um elemento fundamental. Primeiro procurar ter uma noção cada vez mais clara do homem com quem estávamos a lidar, o homem cabo-verdiano, e a partir daí agir em consequência. Segundo, ter muita paciência, tendo em conta a situação de onde partíamos. As dificuldades, com a seca, a fome, a constante incerteza marcam muito as pessoas. Era preciso ter tudo isso em conta. Por exemplo, o homem guineense é um homem que tem toda uma história, atrás dele, que o sistema colonial cortou. Mas o cabo-verdiano não. Só agora é que está a fazer a sua história.
Fala de paciência e confiança, perseverança e segurança ao mesmo tempo...
Sim, essa confiança que nos habituámos a ter. Um dos grandes princípios que aprendemos com Amílcar Cabral foi que lidando com homens, o importante era confiar. Ele confiou. Mas foi traído, assassinado. Quem confia arrisca-se a ser traído. Mas é preciso também não se deixar intimidar por isso. Se se quer fazer algo, é preciso confiar.
No momento em que fez o seu primeiro discurso, à meia-noite desse dia 5 de Julho de 1975, o que pensou? Alguma vez se sentiu apreensivo?
Com certeza. Nessa altura eu estava bem consciente da situação. Houve até na nossa equipa quem falasse de pânico. Havia gente, em pânico, que se dizia "conseguimos, mas agora como é que isto vai marchar?". Nessa altura, todos os que eram contra a independência, pessoas ligadas ao sistema colonial, que sentiam que os seus interesses iam ser lesados, faziam uma propaganda terrível, difundindo a ideia de que ia ser um desastre. Houve mesmo cabo-verdianos que não davam nem seis meses a Cabo Verde. Diziam que não tínhamos condições para ser dependentes, quanto mais independentes! Havia de facto nessa altura um clima derrotista, que chegava a ser anti-patriótico. Mas foi isso que nos deu ainda mais força, para mostrar a essa gente que não era assim.
Depois da morte de Amílcar Cabral, sentiu também alguma insegurança?
Com certeza.
Teve medo?
Tenho que confessar que sim. Porque Cabral era um homem fora de série. Conceber que eu ia sentar-me no lugar dele! Mas face à necessidade que havia e ao consenso que foi gerado em torno da minha pessoa, senti que tinha o dever de assumir aquela responsabilidade, embora com todas as minhas limitações e sabendo de antemão que nada seria como se Cabral estivesse vivo.
E medo pela sua própria vida?
Isso não me chegou a intimidar. Pelo contrário. Nesta altura senti-me como que inebriado pela oportunidade de honrar a memória de Cabral e de fazer tudo para que os objectivos por ele fixados fossem alcançados.
De que forma a injustiça e a repressão das autoridades coloniais influenciaram o seu relacionamento com Portugal?
Faz parte dos próprios princípios do PAIGC nunca confundir colonialismo e povo português. Sempre nos habituámos a separar essas duas coisas. O nosso combate não era contra o povo português, mas sim contra esse regime de humilhação, exploração e repressão; até porque o povo português também estava subordinado ao sistema de repressão.Dos princípios defendidos por Amílcar Cabral, houve algo que não foi possível levar até ao fim: a união entre a Guiné e Cabo Verde, com o golpe de estado de 1980 em Bissau no qual Nino Vieira derrubou Luís Cabral. Outro dos princípios muito importantes na formação do partido era o não alinhamento visto como única opção viável para Cabo Verde. Essa linha mantém-se?
Mantém-se, apesar de ter sido mais notório no contexto de então, com capitalismo de um lado e comunismo do outro. Principalmente nessa altura era fundamental traçar-se uma linha. Hoje continua, apesar dessa bipolarização ter desaparecido. Mas não vamos em Cabo Verde condicionar o nosso comportamento a ajudas externas. Tal seria contra o princípio de soberania que deve garantir a dignidade de um povo.
Quando era Presidente, foi difícil manter essa soberania?
Com certeza, porque na altura, dizia-se que uma das únicas riquezas de Cabo Verde era a sua posição geo-estratégica. Com a guerra fria, o arquipélago era muito disputado quer pela NATO quer pelo Pacto de Varsóvia, para a criação de bases no Atlântico. E Cabo Verde não alinhou com nenhum lado. Para um país como o nosso, era um caminho a impor para garantir a própria dignidade de Cabo Verde que não queria voltar a ser uma colónia.
Foi graças ao partido que liderava que se conseguiu resistir a essas pressões?
Foi graças à "equipa"...
Havia pressões internas para se deixar ir pelo caminho de eventuais alianças?
Era o caminho fácil a seguir.
O que mudou em Cabo Verde, ao longo destes anos?
Apesar das dificuldades económicas, essencialmente estruturais e naturais, avançou-se bastante. As pessoas vivem melhor. Nunca voltou a haver fome desde a independência.
Mas alguma coisa o preocupa?
Com a falta de recursos no país, só há razoes para se estar em permanência preocupado. É uma situação frágil principalmente do ponto de vista económico, que fragiliza tudo o resto. De modo que os dirigentes de Cabo Verde, sejam eles quais forem, de que partido forem, têm de ser pessoas extremamente prudentes, cautelosas, vigilantes. Em Cabo Verde, é preciso muito rigor, muita vigilância. E às vezes, esse rigor, essa vigilância podem falhar.
Preocupa-o a dependência que pode haver, por exemplo, do sector do Turismo?
O turismo só é vantajoso quando gera forças internas de produção. Se o turismo é algo que gera emprego, não só o emprego do empregado do hotel, mas tudo, desde a alimentação ao artesanato, está bem. Mas neste momento, quase tudo o que o turista consome em Cabo Verde é importado. Nesse caso, o turismo não tem o reflexo que seria de esperar.
Como vê o regresso do PAICV ao poder nas eleições de 2001?
É algo extremamente benéfico. Vê-se que há uma tomada de consciência das massas. Relativamente aos dois mandatos do MPD desde 1991, as pessoas tinham consciência que, da mesma maneira que os tinham posto Iá, podiam tirá-los de lá. A partir do momento em que o povo tem essa consciência, este principio de alternância é salutar. Sabendo que não pode ficar eternamente no poder, o partido que governa sente que deve fazer as coisas da melhor forma possível.
O PAIGC pode ser apontado para as gerações políticas africanas como um modelo?
Muitos consideram que o PAIGC foi o mais conhecido e considerado dos movimentos de libertação africanos. Não é por acaso. Amílcar Cabral concebeu e dirigiu essa luta de forma exemplar. E hoje é amplamente reconhecido que a perda de Cabral não foi uma perda só para Cabo Verde e para a Guiné. Foi uma perda para toda a África, que hoje vive uma crise de liderança. Se há hoje tanta confusão no continente africano, é por não haver um líder que esteja acima de todos, que seja reconhecido pêlos outros. Chegou a haver no principio, como por exemplo Nkrumah do Gana, Sékou Touré da Guiné Conacri, Nyerere da Tanzânia, ou Nasser do Egipto. Como Cabral, tomaram uma dimensão africana. Atingindo ele essa dimensão, situou o PAIGC ao nível do partido que levou a cabo a luta mais exemplar de África.Não desejou continuar na política mesmo depois de deixar de ser presidente de Cabo Verde, em 1991?
Diz-se de uma pessoa que nasce ou não animal político. Ora eu não nasci animal político. Eu nasci um homem comum. Foram as circunstâncias que levaram a que eu tivesse um papel político importante, e estando eu nessa situação, esforcei-me para dar o melhor de mim. Mas não quer dizer que estivesse imbuído dessa intuição política.
Essa falta de líderes africanos a que se refere está directamente ligada à crise que vive o continente?
Com certeza. Há um historiador que diz que a África está à espera que apareça um homem com a envergadura, a estatura de Cabral. Havendo um líder que seja respeitado e seguido por todos os outros, a situação poderá ser diferente. Porque há toda uma / consciência hoje generalizada em África, a nível dos chefes de Estado, em como África não tem futuro sem a união africana. Mas é preciso um elemento aglutinador que reúna o consenso. Eu acredito que as coisas poderão marchar. Penso que esse líder vai aparecer.
Há então motivos para ter esperanças?
Com certeza. Não tenho dúvidas que um conf tinente como África volte a dar, como já deu, homens como Cabral, Nasser, Nkrumah ou Sékou Touré. Apesar de todas as coisas que dizem deste último, não há dúvida nenhuma que ele teve um papel extraordinário: só o "Não" do Sékou Touré ao Charles De Gaulle transformou todo o plano francês que havia para as colónias francesas. Ora, só isso foi uma contribuição extraordinária! Homens como estes desapareceram, mas vão reaparecer, vai aparecer uma outra vaga, vai aparecer outra gente.

http://www.publico.pt/Mundo/aristides-pereira-o-descanso-de-um-dos-pais-de-africa_1513137?all=1

domingo, 3 de julho de 2011

AS RECEITAS DAS 21 NOMEADAS PARA AS 7 MARAVILHAS DA GASTRONOMIA PORTUGUESA (II)

Entradas

Pastel de Bacalhau - Lisboa e Setúbal

pastel de bacalhau

No norte do país chamam-lhe bolinho de bacalhau e no centro e sul pastel de bacalhau. A primeira receita oficial desta especialidade tão forte na gastronomia portuguesa surgiu em 1904, no livro "Tratado de Cozinha e Copa, de Carlos Bento da Maia", mas desde 1841 que "o bacalhau feito em bolinhos" - como surgiu referido na obra "A Arte do Cozinheiro e do Copeiro" - era fruto de experimentações, quer seja no modo de preparo quer nos ingredientes.
Receita

Para 6 a 8 pessoas: 500g de bacalhau limpo de peles e espinhas; 300g de batatas cozidas; 3dl de leite; 4 ovos; 1g de pimenta moída; 1 ramo de salsa picada miúdo.
Esmaga-se o bacalhau num almofariz ou passa-se pela máquina de picar carne. Deita-se numa tigela grande, misturando-se com uma colher de pau as batatas, passadas por um esmagador, o leite, as gemas dos ovos e a pimenta até ficar tudo numa massa lisa e homogénea. De seguida juntam-se quatro claras batidas em castelo e a salsa picada.
Rectificam-se os temperos de sal e pimenta e com duas colheres, de sopa ou de sobremesa, tiram-se bocados de pasta fazendo-se bolas redondas ou com a forma de ovos e fritam-se em azeite fino muito quente, deixando escorrer depois de fritos num passador.
Fonte: www.gastronomias.com

Queijo Serra da Estrela - DOP - Beira Interior / Beira Litoral

QUEIJO DA SERRA DA ESTRELA

Referido em obras de escritores como Gil Vicente e Eça de Queirós, o queijo da Serra da Estrela começou por ser um produto consumido apenas por pastores. Só a partir dos finais do século XIX é que passou a manjar servido em quadras festivas e motivo para sentar os amigos à mesa. Devido às qualidades que o individualizam, está reconhecido como DOP (Denominação de Origem Protegida) em todo o espaço Europeu, tendo arrecadado várias medalhas de ouro em concursos internacionais.
Preparação
Para ter direito à denominação Serra da Estrela, tem de ser confeccionado com leite inteiro cru de ovelha bordaleira, raça Serra da Estrela, cardo (flor seca de uma alcachofra, agente coalhador do leite) e sal.
Segundo a descrição da Confraria do Queijo Serra da Estrela, os genuínos são assim: A crosta deve ser lisa, bem formada, fina, inteira, cor amarela palha clara, uniforme. A forma e consistência do queijo deverá ser regulamentar com abaulamento lateral e um pouco na face superior, sem arestas; consistência semimole com alguma flutuação. Som maciço ou ligeiramente timpânico. A textura e cor da massa deve ser bem ligada, fechada ou com alguns olhos, medianamente amanteigada; cor branco marfim uniforme. O sabor e aroma devem revelar um "bouquet" suave, limpo, ligeiramente acidulado.
Fonte: David Lopes Ramos (Público)

Alheira de Mirandela (IG) - Trás-os-Montes e Alto Douro

ALHEIRA DE MIRANDELA

As alheiras mais consumidas e conhecidas são as de Mirandela. Este enchido tradicional fumado, tem formato de ferradura, uma cobertura de tripa natural, de vaca ou de porco, e no interior uma pasta fina de pedaços de carnes desfiadas. Reza a história que foram inventadas pelos judeus portugueses como artimanha para escaparem às malhas da inquisição. Como a sua religião os impedia de comer porco substituíram-na por carnes como vitela, coelho, peru, pato galinha e por vezes perdiz, envolvidos por uma massa de pão que lhes conferia consistência.
Ingredientes:
Os principais ingredientes são a carne e gordura de porco, a carne de aves (galinha e/ou peru) e pão de trigo, o azeite e a banha, condimentados com sal, alho e colorau doce e/ou picante. Podem ainda ser usados como ingredientes a carne de animais de caça, a carne de vaca e o salpicão e/ou o presunto envelhecidos. Consomem-se depois de assadas em brasa suave ou depois de fritas num pouco de azeite e na gordura que vão largando.
Fonte:
http://www.cm-mirandela.pt


Sopa

Açorda à Alentejana - Alentejo

AÇORDA À ALENTEJANA

A tradicional açorda alentejana há só uma, a "açorda de alho". Uma das referências que melhor identifica este prato é a de Silva Picão no livro Através dos Campos: "O almoço consta ordinariamente de açorda com azeitonas. Da clássica açorda alentejana, cujo caldo o abegão prepara num instante, lançando a água a ferver sobre os barranhões, onde o cozinheiro depôs os temperos - azeite e sal picado com alho, poejos ou coentros e pimentão. (...) Em seguida, cada qual puxa da navalha e todos passam a migar o pão para os alguidares, até mais lhe não caber".
Receita
Para 4 pessoas
1 bom molho de coentros (ou um molho pequeno de poejos ou uma mistura das duas ervas); 2 a 4 dentes de alho; 1 colher de sopa bem cheia de sal grosso; 4 colheres de sopa de azeite; 1,5 litro de água a ferver; 400 gramas de pão caseiro (duro); 4 ovos.
Pisam-se num almofariz, reduzindo a papa, os coentros (ou os poejos) com os dentes de alho, a que se retirou o grelo, e o sal grosso. Deita-se esta papa na terrina ou numa tigela de meia cozinha, que neste caso fará os ofícios de terrina.
Rega-se com o azeite e escalda-se com água a ferver, onde previamente se escalfaram os ovos (de onde se retiraram). Mexe-se a açorda com uma fatia de pão grande, com que se prova a sopa. A esta sopa dá-se o nome de "sopa azeiteira ou "sopa mestra".
Introduz-se então no caldo o pão, que foi ou não cortado em fatias ou em cubos com uma faca, ou partido à mão, conforme o gosto.
Depois tapa-se ou não a açorda, pois uns gostam dela mole e outros apreciam as sopas duras. Os ovos são colocados no prato ou sobre as sopas na terrina, também conforme o gosto.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Caldo Verde - Entre Douro e Minho

CALDO VERDE

O caldo de batatas e couve-galega cortada finamente é de origem minhota, mas encontra-se em todas as regiões do país. O caldo verde tanto se come no início da refeição como numa ceia tardia. Fernando Pessoa era devoto e o poeta Arnaldo Ferreira descreve-o no poema "Uma Casa Portuguesa", que Amália cantou e imortalizou: "Basta Pouco, Poucochinho p'ra alegrar, uma existência singela... É só Amor, pão e vinho, e um Caldo Verde, verdinho a fumegar na tigela".
Receita
para 4 pessoas
180 a 200g de couve galega cortada em caldo-verde; 1 cebola; 2 dentes de alho; 600g de batatas; 4 rodelas de salpicão ou de chouriço de carne; 2 fatias de broa de milho; 1,5dl de azeite; sal.
Descascam-se as batatas, a cebola e os dentes de alho e levam-se a cozer em 1,5 litros de água temperada com sal e metade da quantidade de azeite. Entretanto arranjam-se as folhas de couve, lavam-se e cortam-se em juliana finíssima (em caldo-verde).
Quando as batatas estiverem bem cozidas esmaga-se tudo (batatas, cebola e alho) com um garfo ou com o espremedor de batata. Leva-se novamente ao lume e 10 minutos antes de servir, com o caldo a ferver em cachão, junta-se a couve bem escorrida. Deixa-se cozer com o recipiente até a couve deixar de saber a cru.
Rectifica-se o tempero e adiciona-se o restante azeite.
Coloca-se uma rodela de salpicão ou de chouriço de carne em cada prato ou tigelinha e rega-se com o caldo-verde. Cortam-se as fatias de broa ao meio e distribuem-se pelas pessoas.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Sopa da Pedra - Estremadura e Ribatejo

SOPA DA PEDRA

Foi na década de 1960, na cidade de Almeirim que a sopa da pedra ganhou fama. Hoje, é a principal atracção gastronómica desta região do Ribatejo, e que lhe valeu o apelido de capital da sopa da pedra. O prato, que teve origem numa fábula, mantém o seu modo de confecção inalterado. Mas a pedra é apenas o pretexto, uma vez que a sopa é composta por diversos ingredientes que tornam a sopa num prato principal.
Receita para 8 10 pessoas
1 litro de feijão encarnado; 1 orelha de porco; 1 chouriço negro (de sangue da região); 1 chouriço de carne; 150g de toucinho entremeado; 750g de batatas; 2 cebolas; 2 dentes de alho; 1 folha de louro; 1 molho de coentros; sal e pimenta.
Se o feijão for do ano, não necessita ser demolhado. Se for duro, põe-se de molho durante algumas horas.Escalda-se e raspa-se a orelha de porco. Leva-se o feijão a cozer em bastante água, juntamente com a orelha, os chouriços, o toucinho, as cebolas, os alhos e o louro. Tempera-se com sal e pimenta. Se for necessário juntar mais água, deve ser sempre a ferver.
Quando a carne estiver cozida, retira-se e introduz-se na panela as batatas cortadas aos quadradinhos e os coentros picados. Deixa-se cozer a batata. Assim que se retirar a panela do lume, introduzem-se as carnes previamente cortadas aos bocadinhos e uma pedra bem lavada, que deve ir na terrina.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Marisco

Amêijoas à Bulhão Pato - Lisboa e Setúbal

AMEIJOAS À BULHÃO PATO

Desde a idade do bronze que a amêijoa integra a dieta das populações ribeirinhas a sul do Tejo. Mas foi em honra de Bulhão Pato - poeta, membro da Academia Real das Ciências, mas também boémio, caçador e gastrónomo - que a amêijoa ganhou notoriedade. Nos anos de 1890 eram famosas as tertúlias organizadas em casa de Bulhão Pato onde as amêijoas acompanhavam sempre as conversas.
Receita
para 4 pessoas
1kg de amêijoas; 2 colheres de sopa de azeite: 2 dentes de alho; 1 limão; 1 raminho de coentros; sal; pimenta.
Arranjam-se as amêijoas como habitualmente, pondo-as de molho em água com bastante sal e lavam-se em várias águas para largarem a areia. Leva-se ao lume o azeite, deixa-se aquecer e juntam-se os dentes de alho picados. Deixa-se alourar um pouco. Introduzem-se as amêijoas e os coentros finamente picados e temperados com sal e pimenta. Mexe-se o recipiente de vez em quando. Quando todas as amêijoas estiverem abertas, regam-se com o sumo de meio limão. Serve-se com o restante limão cortado em quartos
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Arroz de Marisco - Estremadura e Ribatejo

ARROZ DE MARISCO

O Arroz de Marisco é uma das atracções da Praia de Vieira de Leiria, procurado por turistas e pelos seus habitantes e turistas, que têm no arroz de marisco uma forma de visitar mais frequentemente esta praia. Este ponto turístico é muito procurado pela gastronomia, pelas águas medicinais e banhos de mar muito ricos em iodo.
Receita

Faz-se um refogado com cebola, alho e azeite. Acrescenta-se polpa de tomate, piripiri, amêijoa e camarão descascado. Depois de tudo bem refogado, acrescenta-se água (3 medidas por cada uma de arroz) e arroz (100 g por pessoa). Quando o arroz estiver quase cozido junta-se a lagosta e a sapateira (já cozidas) e rectificam-se os temperos. Serve-se num tacho de barro, ainda a fervilhar...
Fonte: http://agvieiraleiria.ccems.pt/fugadinf/Venha_Conhecer_VLeiria.pdf

Xarém com Conquilhas - Algarve

XERÉM COM CONQUILHAS

Xarém é o nome árabe destas papas, prato muito tradicional de Vila Real e Tavaira. Embora o milho para o xarém se encontre já comercializado, é mais apreciado o milho moído em casa, porque o que o torna particular é ser mal moído (trituram-se os grãos na molineta, a mó natural herdada dos Romanos). Segundo Maria de Lourdes Modesto, em Faro substituem as conquilhas por amêijoas e dão-lhe o nome de Baile de Roda com Castanholas. Há um ditado popular que diz que "Um Olhanense passava / Muito bem para onde fosse / Com um prato de xarém / E uma batatinha doce."
Receita
para 5 pessoas
500g de farinha de milho (molho fino); 200g de toucinho; 1kg de conquilhas; 1 colher de sopa de banha, sal.
Põem-se as conquilhas de molho em água e sal para largarem a areia. Leva-se ao lume uma panela com 3 litros de água temperada com sal. Assim que a água estiver morna, começa a deitar-se o milho em chuva (este milho foi moído na atafona, que é o nome que no Algarve se dá à mó, e peneirado). À medida que se vai juntando o milho, vai-se mexendo sempre com uma colher de pau.
Entretanto, corta-se o toucinho em bocadinhos e frita-se. Deita-se dentro do milho que está a cozer. Quando o milho fizer barrigas de velha (bolhas a rebentar), juntam-se-lhes as conquilhas que abrirão dentro do milho. Quando as papas estiverem com a consistência desejada, adiciona-se a banha. Deixa-se ferver um pouco mais e ferve-se imediatamente
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Peixe

Bacalhau à Gomes de Sá - Entre Douro e Minho

BACALHAU À GOMES DE SÁ

Este prato tem o nome do seu criador, o comerciante de bacalhau do Porto, José Luís Gomes de Sá. Conta-se que entregou um manuscrito com a receita a um amigo, onde acrescentou: "João se alterar qualquer cousa já não fica capaz". Mesmo sem que pudesse prever que se viria a tornar num dos pratos típicos desta região, tento desta forma que a preparação do prato não fosse sendo alterada.
Receita
para 4 pessoas
500g de bacalhau; 500g de batatas; 1,5dl de azeite; 1 dente de alho; 2 cebolas; 2 ovos cozidos; azeitonas pretas; salsa; 5 dl de leite; sal; pimenta.
Demolha-se o bacalhau, coloca-se num tacho e escalda-se com água a ferver. Tapa-se e abafa-se o recipiente com um cobertor e deixa-se ficar assim durante 20 minutos. Depois escorre-se o bacalhau, retiram-se as peles e as espinhas e desfaz-se em lascas. Põem-se estas num recipiente fundo, cobrem-se com leite bem quente e deixam-se ficar de infusão 1h30 a 3 horas.
Entretanto, cortam-se as cebolas e o dente de alho às rodelas. Junta-se ainda o bacalhau escorrido. Mexe-se tudo ligeiramente com o azeite. Juntam-se as batatas, que se cozeram com a pele, se pelaram e se cortaram às rodelas. Junta-se ainda o bacalhau escorrido. Mexe-se tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar. Tempera-se com sal e pimenta. Deita-se imediatamente num tabuleiro de barro e leva-se a forno bem quente durante 10 minutos. Serve-se no prato em que foi ao forno, polvilhado com salsa picada e enfeita-se com rodelas de ovo cozido e azeitonas pretas.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Polvo Assado no Forno - Açores

POLVO ASSADO NO FORNO

Nos Açores as receitas de polvo abundam por todo o Arquipélago. Apesar de alguns açorianos dizerem que o polvo assado no forno não é das receitas mais tradicionais, foi a seleccionada para representar o arquipélago. Segundo informação da organização das 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa o polvo assado no forno é confeccionado em todas as ilhas de um modo geral, mas é no Concelho de Ponta Delgada que, nas décadas de 1950 e 1960, atingiu o estatuto de "marca" em duas emblemáticas e distintas, casas de pasto, uma situada na Freguesia da Relva, e outra na Freguesia dos Mosteiros..
Receita

1,5 kg de polvo grado; 1 colher de chá de colorau; 1 copo de vinho tinto ou dos Açores; 1/2 copo de água; 1 cebola grande picada; 2 dentes de alho; sal e pimenta q.b.; 1 malagueta; 1 dl de azeite; 3 colheres de sopa de margarina; 1,5 kg de batata média
Amanhe o polvo e lave-o muito bem. Depois de sovado, volte a lavá-lo e separe-lhe os tentáculos inteiros. Num tacho, leve ao lume a refogar o azeite, a cebola e os alhos picados, vá mexendo uma vez por outra e, quando começarem a alourar, junte o colorau, mexa, rapidamente adicione a água e o vinho e a malagueta, junte-lhe o polvo aos raios se forem grandes. Deixe cozer o polvo quando vir que está cozido junte as batatas inteiras com um golpe e deixe coser. Mexa sempre para não pegar no fundo do tacho.
Quando vir que as batatas estão ao seu gosto, retire do lume e deito num tabuleiro que possa ir ao forno. Deite a margarina no tabuleiro por cima do polvo. Vai ao forno para alourar o polvo e as batatas. Sirva acompanhado de fatias de pão caseiro
www.gastronomias.com

 

Sardinha Assada - Lisboa e Setúbal

SARDINHA ASSADA

Desde o século XVI que se reconhece a importância e o valor da sardinha na PenínsulaIbérica e reza a história que, em 1855, as sardinhas de Setúbal até alcançaram menção honrosa na

Exposição Internacional de Paris. E está escrito no recenseamento de peixes do litoral lusitano, realizado pelo desembargador Duarte Nunes do Leão, no século XVI: "No mesmo mar de Setúbal e no de Sesimbra, sua vizinha, há a mais sardinha e mais saborosa que se pode dar".Não há uma receita concreta, mas o método indicado é: "Puxar a brasa à nossa sardinha" é, no sentido literal e figurado, um elemento importante e determinante na confecção deste prato em Setúbal. A forma como se ateia e queima o carvão, a colocação das sardinhas com as barrigas para dentro, o assar em lume brando, dando a volta na grelha dupla, faz destas o ex-libris gastronómico da cidade. Para melhor saborear a sardinha, esta deverá ser comida em cima do pão, o qual poderá ser tostado nas brasas.
Fonte:
www.7maravilhas.pt

Carne

Chanfana - Beira Litoral

CHANFANA

 

Este prato é referenciado desde o século XVII como obrigatório em todas as festas (e também casamentos, baptizados, etc.) da região da Bairrada. Maria de Lourdes Modesto diz que a carne mais indicada é a de cabra, podendo também ser confeccionado com carneiro. E refere que nunca deve ser feito no dia em que é servido, mas na véspera ou antevéspera, aquecendo-se muito bem antes de servir. De referir ainda que a Chanfana se encontra em processo de qualificação pela marca ÉQualificado®.
Receita
para 10 a 12 pessoas
3 kg de carne de cabra ou de carneiro; 150g de toucinho; 1dl de azeite; 1 colher de sopa de banha; 1 cebola; 5 dentes de alho; 2 colheres de chá de pimenta; 1 colher de chá de colorau; 1 ramo de salsa; ½ folha de louro; sal; noz-moscada; 1 a 1,5 litros de vinho tinto da Bairrada.
Corta-se a carne em bocados, que se colocam num tacho preto de barro de Molelos. Juntam-se todos os ingredientes citados, à excepção do vinho, que apenas deve ser o suficiente para cobrir a carne. Como norma, tendo forno de pão, aquece-se este como se fosse para fazer broa de milho, isto é, bastante forte.Introduz-se a caçoila tapada e "esquece-se" até o forno esfriar, o que leva entre 4 a 5 horas. A meio deste tempo, convém verificar se é necessário adicionar mais vinho. Não se dispondo de um forno de pão, coze-se a chanfana no fogão, que deverá ser aquecida até ao máximo da sua potência meia hora antes de se introduzir o preparado. Antes de comer aquece-se bem a chanfana e serve-se na caçoila em que cozeu, com batatas cozidas em água e sal à parte.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Leitão da Bairrada - Beira Litoral

LEITÃO DA BAIRRADA
"Às vezes, sem se fazer anunciar e, por isso, tornando-se uma urgência, apetece-me leitão à moda da Bairrada", escreveu David Lopes Ramos, numa das suas crónicas no Público. E como ele certamente muita gente se desloca propositadamente à Bairrada para degustar o leitão da Bairrada, conhecido desde o tempo dos romanos e que hoje é um produto gastronómico reconhecido pela Entidade Regional de Turismo Centro de Portugal.
Tempero e modo de temperar o leitão
Pisam-se num almofariz de bronze (hoje usam-se os de madeira) 2 cabeças de alho; um punhado de sal (3 colheres de sopa, por exemplo); 1 colher de sopa bem cheia de boa pimenta; um pouco de salsa; cerca de 50g de bom toucinho; 50g a 100g de unto (pique); 1 folha de louro. (Há quem não adicione louro, assim como há quem ponha mais do que uma folha. No entanto, 1 folha está indicada e é tradicional).
Estas quantidades são as habituais para um leitão de 8 kg a 8,5 kg, podendo ser sensivelmente alteradas conforme o tamanho do leitão ou o gosto de cada um. Depois de tudo muito bem pisado, junta-se ainda um pouco de azeite. Há, também, quem use misturar um pouco de vinho branco da Bairrada (uma ou duas colheres de sopa).
O leitão é agora enfiado na vara (espeto), entrando esta pelo ânus que, entretanto, se alargou o suficiente, saindo pela boca cerca de um palmo. Amarram-se seguidamente as pernas à vara com um arame fino, ficando as mãos livres. A vara costuma ser de pinheiro bem seco (para não transmitir ao leitão sabor a resina) e previamente "queimada", devendo ter o comprimento necessário para que, metida até ao fundo do forno, fique de fora cerca de um metro, pelo menos.
Seguidamente, o leitão é muito bem barrado com o tempero descrito, tanto exterior como interiormente, introduzindo o restante na barriga e em todas as partes vazias. É costume também picar as coxas e as espáduas do leitão com uma agulha grossa e introduzir o mesmo tempero nestas picadelas.
Cosem-se depois os golpes abertos na barriga e entre as mãos (ou pescoço) com uma agulha chamada "agulha do leitão" (tipo de cozer sacos mas mais pequena) e um fio incolor de linho ou de algodão. O leitão está pronto a entrar no forno.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Tripas à Moda do Porto - Entre Douro e Minho

TRIPAS À MODA DO PORTO
A este prato devem os Portuenses o epíteto de Tripeiros de que muito se orgulham e que é testemunho da sua reconhecida generosidade. Dizem uns que esta receita data de 1384 e que se deve ao facto de os Portuenses terem enviado toda a carne para a frota que, chefiada por Rui Pereira, veio em auxílio de Lisboa, cercada por D. João I de Castela; outros atribuem o facto, uma vez mais, à generosidade dos Tripeiros que, em circunstâncias muito semelhantes, aquando da expedição de Ceuta, ficaram reduzidos a comer apenas as miudezas da carne.
Composto por tripas, folho e favos de vitela, presunto, orelha de porco, mão de vitela, chouriço, frango, cebolas, feijão branco, cenouras, folha de louro, banha, ramo de salsa, limão, sal e cominhos q.b..
Receita para 10 pessoas
1kg de tripas de vitela (compreendendo livros ou folhos, favos e a touca); 1 mão de vitela; 150g de chouriço de carne; 150g de orelheira; 150g de toucinho entremeado ou presunto; 150g de salpicão; 150g de carne de cabeça de porco; 1 frango ou meia galinha; 1 kg de feijão manteiga; 2 cenouras; 2 cebolas grandes; 1 colher de sopa de banha; 1 ramo de salsa; 1 folha de louro; sal e pimenta.
Lavam-se as tripas muito bem e esfregam-se com sal e limão. Cozem-se em água com sal. Limpa-se a mão e de vitela e coze-se. Noutro recipiente cozem-se as restantes carnes e o frango. Estas carnes retiram-se à medida que vão sendo cozidas. Coze-se o feijão que já está demolhado com as cenouras ás rodelas e uma cebola aos gomos. Pica-se uma cebola e "estala-se" numa colher de banha.
Juntam-se todas as carnes cortadas em bocados (incluindo as tripas, frango e enchidos, etc.) Deixa-se apurar em pouco e introduz-se o feijão. Tempera-se com sal, pimenta preta moída na altura, o louro e a salsa. Deixa-se apurar bem. Retira-se a salsa e serve-se em serviço de porcelana ou de barro, polvilhado, segundo o gosto, com cominhos ou salsa picada e acompanhado com arroz branco seco.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Caça

Coelho do Porto Santo à Caçador – Madeira

COELHO DE PORTO SANTO À CAÇADOR

O Coelho do Porto Santo à Caçador é hoje uma referência gastronómica e cultural na pequena ilha do Porto Santo, em parte devido ao facto de grande parte da população apreciar pratos de caça.
Para além do coelho os ingredientes são segurelha, alecrim, salva, cebola da Madeira, alho seco da Madeira, vinho caseiro da Madeira, vinagre de vinho caseiro da Madeira, sal e pimenta da terra.

Fonte: www.7maravilhas.pt

 

Coelho à Caçador - Beira Litoral

COELHO À CAÇADOR

Esta receita deve a sua designação ao coelho bravo que vive no mato e o elevado número que as suas populações podem atingir, desde cedo se tornaram razão para que os homens os

caçassem, protegendo as suas colheitas e aproveitando a sua pele para o comércio e implementando a sua carne saborosa e abundante nos seus hábitos alimentares.
Na confecção deste prato, o coelho é previamente colocado numa taça e temperado de alho, pimenta, louro e colocado em vinho tinto de qualidade (preferencialmente, vinho do Dão, produto com DOP) e deixado a marinar para o dia seguinte. Num tacho de ferro faz-se um refogado com o azeite, a cebola em rodelas finas, o toucinho e os tomates, ao qual se acrescenta a carne marinada. Ferve em lume brando, regando se necessário somente com vinho (nunca água). No final acrescenta-se o alecrim.
Fonte:
www.7maravilhas.pt

 

Perdiz de Escabeche de Alpedrinha - Beira Interior

PERDIZ DE ESCABECHE

Este prato que reaviva a memória da tradição de caça desta região da Beira Interior, que é extremamente rica em pratos desta especialidade. Coloca-se numa panela a perdiz com azeite, vinagre, dentes de alho, sal e água até a tapar. A perdiz coze lentamente e é conservada neste molho. Deverá servir-se fria.
Fonte: www.7maravilhas.pt

Doces

Pastéis de Tentúgal (IG) - Beira Litoral

PASTEL DE TENTUGAL
São saborosos, mas ainda sabem melhor depois de se conhecerem os métodos artesanais como este doce ainda é confeccionado. A sua massa, não é fina, é finíssima e exige mãos experientes para estender as folhas de massa que têm de ficar com a incrível espessura 0,05mm. As referências a estes pastéis encontram-se a partir do século XVII nos documentos do Convento da Nossa Senhora da Natividade. Em 1891 escrevia-se no jornal "Conimbricense" que "em Tentúgal existe um convento da Ordem do Carmo onde ainda existe uma freira... é aqui que se preparam os afamados pastéis de Tentúgal, que é preciso comer uma vez na vida".
Receita
Para a massa
: 500g de farinha; 2 colheres de sopa de manteiga; 2dl de água; sal; 200g de manteiga (aprox.); açúcar em pó.
Para o recheio:
250g de açúcar; 12 gemas de ovos.
Peneira-se a farinha várias vezes por dentro de um alguidar e faz-se uma cova no meio onde se deita a manteiga (ou margarina) derretida. Mistura-se. Aquece-se a água onde previamente se dissolveu o sal. Adiciona-se a água, pouco a pouco, à farinha, trabalham-se bem todos os elementos, amassando até a massa se despegar das mãos. Molda-se a massa em bola e coloca-se num prato previamente polvilhado com farinha. Polvilha-se a massa também com um pouco de farinha e cobre-se com uma tigela aquecida. Deixa-se repousar durante 30 minutos, pelo menos. Entretanto preparam-se os ovos-moles bastante espessos.
Estende-se um pano sobre a mesa. Pincela-se a superfície da massa com um pouco de manteiga derretida (ou azeite) e começa a retirar-se bocadinhos de massa que se estendem, primeiro com o rolo, e, depois, se esticam com os dedos, tendo o cuidado de não romper a massa. Esta deve ficar tão fina como uma folha de papel de seda.
Corta-se esta massa rectangular com 14 cm por 10 cm. As bordas de massa espessas não devem ser aproveitadas para folhas dos pastéis.
Derrete-se a manteiga (ou margarina) em banho-maria. Depois sobrepõem-se quatro folhas de massa, pincelando-as com manteiga derretida à medida que se vão sobrepondo.
Colocam-se duas colheres de sopa de ovos-moles sobre o rectângulo de massa (com quatro folhas) e enrola-se o pastel. Dobram-se as pontas para cima e levam-se os pastéis a cozer rapidamente em forno forte. Polvilham-se com açúcar em pó (o chamado açúcar inglês).
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Pastel de Belém - Lisboa e Setúbal

PASTEIS DE BELÉM
A receita do pastel de Belém é dos segredos nacionais mais bem guardados da antiga doçaria portuguesa. Só os mestres pasteleiros que o confeccionam conhecem a receita, que se mantém inalterável desde o início do seu fabrico, em 1837. A história do pastel de Belém diz que o doce surgiu como consequência da revolução liberal de 1820. Depois de encerrados os conventos em Portugal alguém colocou à venda na loja do Mosteiro dos Jerónimos uns doces pastéis, numa tentativa de ajudar os trabalhadores e membros do clero que tinham sido expulsos dos conventos. Rapidamente ganharam fama por entre os visitantes da Torre de Belém e do Mosteiro dos Jerónimos e hoje são conhecidos e apreciados no mundo. Muitas são as receitas que tentam reproduzir, mas até hoje nunca ninguém conseguiu descobrir o "segredo" dos Pastéis de Belém.
Receita do pastel de mata (a mais próxima dos pastéis de Belém)

Para a massa folhada
500g de farinha; 500g de manteiga ou de margarina para folhados; 2 a 3 dl de água; sal.
Para o creme: 5dl de natas; 8 gemas; 2 colheres de chá de farinha; 200g de açúcar, casca de limão.
Derrete-se o sal na água morna e divide-se a gordura em três partes iguais. Coloca-se a farinha sobre a mesa de pedra, faz-se uma cova ao centro da farinha e deita-se aí a água. Amassa-se a mistura até ficar homogénea e deixa-se descansar cerca de 20 minutos. Em seguida estende-se a massa de forma a obter-se um quadrado.
Amassa-se um pouco a gordura de modo a ficar com a consistência de massa. Barra-se com uma terça parte da margarina toda a massa, deixando por barrar uma tira com a largura de um dedo, em toda a volta do quadrado. Dobra-se a massa de baixo para cima e da esquerda para a direita, tendo como principal cuidado a perfeição do ajustamento das pontas e dos lados. Estende-se a massa com um rolo até formar novamente um quadrado. Barra-se de novo com o segundo terço da gordura e procede-se do mesmo modo. Repete-se esta operação com a restante gordura.
Finalmente, estende-se a massa a mais fina possível, corta-se em tiras e enrolam-se de modo a obterem-se rolos compridos. Cortam-se em bocados de 2 a 3 cm. Coloca-se ao alto cada bocado de massa nas forminhas de pastéis e, com a ajuda do dedo polegar, ligeiramente molhado em água, esmaga-se a massa forrando as forminhas.
Entretanto, prepara-se o creme misturando todos os ingredientes indicados. Leva-se a mistura ao lume até levantar fervura. Retira-se do calor e, quando estiver morno, deita-se nas caixas de massa. Levam-se a cozer em forno muito quente (250º a 300ºC).
Ao servir, podem ser polvilhados com canela e açúcar em pó.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

Pudim Abade de Priscos - Entre Douro e Minho

PUDIM ABADE DE PRISCOS
O Pudim Abade de Priscos é um pudim típico de Braga, uma das poucas receitas conhecidas da autoria do padre Manuel José Machado Rebelo, o famoso Abade de Priscos. Este cozinheiro rústico português. O pudim ficou conhecido quando o director do Magistério Primário feminino de Braga, Pereira Júnior, pediu ao Abade de Priscos receitas para ensinar no magistério. Ele cedeu-a mas deixou o alerta: "a receita é só o princípio... As mãos, o olfacto, o paladar do verdadeiro cozinheiro fazem o principal.
Receita
400g de açúcar, 50g de toucinho fresco; 15 gemas; 5dl de água; 1 cálice de vinho do Porto; 1 casca de limão; 1 pau de canela; caramelo (200g de açúcar). Leva-se o açúcar ao lume com a água, a casca de limão, o pau de canela e o toucinho cortado em tiras fininhas. Deixa-se ferver até fazer o ponto em fio (103ºC). Retira-se a calda do lume, deixa-se arrefecer e juntam-se as gemas misturadas com o vinho do Porto.
Deita-se a massa numa forma de pudim com tampa, previamente barrada com caramelo. Leva-se a cozer em forno bem quente (250ºC), em banho-maria, durante cerca de 1 hora. Desenforma-se quase frio.
Fonte: Cozinha Tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, ed.Verbo

http://fugas.publico.pt/Noticias/284885_as-receitas-das-21-nomeadas-para-as-7-maravilhas-da-gastronomia?pagina=-1

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A crise em desenvolvimento e a relevância de Marx

 

István Mészáros*

29.Nov.08 :: Colaboradores

Analisando de forma exaustiva a presente crise estrutural do capitalismo, Istvan Meszaros,amigo e colaborador de odiario.info afirma que “O grande problema para o sistema capitalista global é, contudo, que o incumprimento da América não é de todo impensável. Pelo contrário, ele é – e tem sido desde há muito – uma certeza que se aproxima. (…) «Quando exactamente e de que forma – pode haver muitas variedades, mais ou menos brutais – os EUA incumprirão a sua dívida astronómica não se pode ver neste momento. Só pode haver duas certezas a este respeito. A primeira é que a inevitabilidade do incumprimento americano afectará profundamente toda a gente neste planeta. E a segunda, que a posição de potência hegemónica preponderante dos EUA continuará a ser afirmada de todas as formas, de modo a fazer o resto do mundo pagar pela dívida americana por tanto tempo quanto seja capaz de fazê-lo»”

Alguns de vós talvez tenham estado presentes na nossa reunião de Maio deste ano neste edifício, quando recordei o que havia dito a Lucien Goldman, em Paris, poucos meses antes do histórico Maio de 1968 francês. Em contraste com a perspectiva então prevalecente do “capitalismo organizado”, que se supunha ter deixado para trás com êxito o estádio da “crise do capitalismo” – uma visão fortemente asseverada por Marcuse e nessa época também partilhada pelo meu querido amigo Lucien Goldman – insisti no facto de que, em comparação com a crise em que estamos realmente a entrar, “a Grande Crise Económica Mundial de 1929-1933″ se parecer com “uma festa no salão de chá do vigário”.

Nas últimas semanas tiveram uma antevisão do que eu tinha em mente. Mas apenas uma antevisão, porque a crise estrutural do sistema do capital como um todo, a qual estamos a experimentar na nossa época, está destinada a ficar consideravelmente pior. Ela tornar-se-á na devida altura muito mais profunda, no sentido de invadir não apenas o mundo das finanças globais mais ou menos parasitárias, mas todos os domínios da nossa vida social, económica e cultural.

A questão óbvia que devemos agora tratar refere-se à natureza da crise global em desenvolvimento e as condições necessárias para a sua solução factível.

Se tentarem recordar o que foi infindavelmente repetido nas últimas duas semanas acerca da crise actual, há uma palavra que se destaca, ensombrando todos os demais diagnósticos apregoados e os remédios correspondentes. Essa palavra é confiança. Se ganhássemos uma nota de dez libras por cada vez que esta palavra mágica foi oferecida para consumo público nas últimas duas semanas em todo o mundo, sem mencionar a sua continuada reafirmação desde então, estaríamos todos milionários. O nosso único problema seria então o que fazer com os nossos milhões subitamente adquiridos. Nenhum dos nossos bancos, nem mesmo os nossos bancos nacionalizados recentemente – nacionalizados ao custo considerável de não menos do que dois terços dos seus activos de capital – poderia fornecer a lendária “confiança” necessária ao depósito seguro ou ao investimento.

Até o nosso primeiro-ministro, Gordon Brown, nos apresentou na semana passada a frase memorável “Confiança é a coisa mais preciosa”. Conheço a cantiga – e provavelmente a maioria de nós também a conhece – que nos diz que: “O amor é a coisa mais preciosa”. Mas a confiança no sistema bancário capitalista ser a coisa mais preciosa?! Tal sugestão é absolutamente perversa!

No entanto, a advocacia deste remédio mágico parece agora ser universal. A palavra é repetida com tamanha convicção como se a “confiança” pudesse simplesmente chover do céu ou crescer em grande abundância em árvores financeiras “capitalistamente” bem adubadas.

Há três dias atrás (a 18 de Outubro) o programa da BBC das manhãs de domingo – o programa Andrew Marr – entrevistou um eminente cavalheiro idoso, Sir Brian Pitman, o qual foi apresentado como o antigo Chefe do negócio bancário do Lloyd’s. Eles não disseram quando ele liderou aquela organização, mas o modo como falou logo o tornou claro. Pois transpirou através das suas respostas respeitosamente recebidas que ele deve ter sido o Chefe do Lloyd’s Bank bem antes da Crise Económica Mundial de 1929-33. Consequentemente, para encorajar os telespectadores, ele apresentou uma grande inovação conceptual no discurso da confiança ao dizer que as nossas perturbações eram todas elas devidas a alguma “Super-confiança”. E imediatamente demonstrou também o significado de “Super-confiança”, ao afirmar, mais de uma vez naquela curta entrevista, que não pode haver problemas sérios hoje, porque o mercado sempre toma conta de tudo, mesmo que por vezes ele vá inesperadamente muito abaixo. Posteriormente ele sempre sobe outra vez. De modo que ele também fará isso desta vez, e subirá infalivelmente repetidas vezes no futuro. A crise actual não deveria ser exagerada, disse ele, porque é muito menos séria hoje do que a que experimentámos em 1974. Pois em 1974 tivemos uma semana de três dias de trabalho na Grã-Bretanha [ainda que em nenhum outro lugar] e agora não temos isso. Temos? E quem poderia argumentar contra aquele facto irrefutável?

Assim, temos agora a palavra mágica explicativa para todas as nossas perturbações não a apresentar-se como um órfão infeliz, solitário, mas como parte de algo como uma tríade “fukuyamizada” pseudo-hegelina: confiança – falta de confiança e super-confiança. O único constituinte que falta neste discurso mágico explicativo é agora o fundamento real do nosso perigoso sistema de banca e seguros que opera no terreno dos truques de confiança em proveito próprio que mais cedo ou mais tarde estão destinados a serem (e de tempos em tempos realmente têm sido) descobertos.

De qualquer forma, toda esta conversa acerca das virtudes absolutas da confiança na administração económica capitalista assemelha-se muito à explicação oferecida pela mitologia indiana acerca da base de suporte do universo. Pois naquela antiga visão do mundo dizia-se que o universo era carregado, muito reconfortantemente, sobre as costas de elefantes. E os poderosos elefantes?, poderia perguntar-se. Ninguém pensaria que isso fosse uma dificuldade. Pois os elefantes são, ainda mais reconfortantemente, suportados nas costas da tartaruga cósmica. Mas, e quanto à própria tartaruga cósmica? Não é suposto que pergunte tal questão, para que não sirva de alimento aos tigres de Bengala, antes de eles serem extintos.

Felizmente, talvez (?), o jornal The Economist é um bocadinho mais realista na sua avaliação da situação.

No contexto deste nosso assunto penoso, o agora reconhecido agravamento da crise económica, vou apresentar-lhes citações exactas, incluindo alguns números malditos de fracassos capitalistas que já não são negáveis, e que foram retirados principalmente de publicações bem estabelecidas e com uma consciência de classe desavergonhadamente burguesa como os jornais The Economist e The Sunday Times. Vamos citá-las meticulosamente, palavra por palavra, não só porque elas são eminentes no seu campo como também a fim de evitar que nos acusem de “viés ideológico ou de distorção de esquerda”.

Marx costumava dizer que nas páginas de The Economist a classe dominante estava a “conversar consigo própria”. As coisas mudaram um pouco desde então. Pois agora até mesmo no campo especializado da “especialidade económica” a classe dominante precisa de um órgão de propaganda de circulação em massa, com o objectivo da mistificação geral. No tempo em que Marx viveu, a classe dominante vivia cheia de “confiança”, e também vivia rodeada de uma “super-confiança” incontestada, para necessitar disso. Assim, sob as menos arrogantes circunstâncias actuais, o semanário de distribuição massiva com sede em Londres, The Economist, – o farisaico porta-voz do anual “Davos Jamboree” dominado pelos EUA – é cauteloso ao conceder que a crise que estamos a enfrentar hoje refere-se às dificuldades de “Salvar o sistema”, conforme a sua capa do número de 11 de Outubro de 2008.

Podemos admitir, naturalmente, que nada menos do que “salvar o sistema” (ou não) é o que está em causa no nosso tempo, mesmo que a discussão de The Economist deste problema seja um tanto estranha e contraditória. Pois no seu modo habitual de tentar apresentar a sua posição altamente partidária como uma visão objectivamente “equilibrada”, utilizando a fórmula do “por um lado isto e por outro lado aquilo”, o The Economist sempre consegue atingir a sua desejada conclusão em favor da ordem estabelecida. Assim, também nesta ocasião, The Economist assevera no seu artigo principal de 11 de Outubro que “esta semana assistiu-se ao primeiro vislumbre de uma resposta global abrangente para o fosso da confiança”. Agora, felizmente, espera-se que o “fosso da confiança”, embora reprovável em si próprio, se remedeie graças a uma algo bizarra “resposta global abrangente”.

Ao mesmo tempo, no lado mais realista, o semanário londrino também reconhece no mesmo editorial que,

“O dano para a economia real está a tornar-se aparente. Na América o crédito ao consumidor está agora a contrair-se, e cerca de 150 mil americanos perderam os seus empregos em Setembro, o máximo desde 2003. Algumas indústrias estão seriamente ameaçadas: as vendas de carros estão no seu mais baixo nível em 16 anos pois os aspirantes a compradores são incapazes de obter crédito. A General Motors fechou temporariamente algumas das suas fábricas na Europa. Por todo do globo indicadores prospectivos, como inquéritos de compras junto a administradores, estão horrivelmente sombrios”.

Eles não dizem, contudo, que “o fosso da confiança” pode ter algo a ver com tais factos.

Naturalmente, a defesa do sistema deve prevalecer em cada artigo, mesmo se esta tiver de ser apresentada com a expressão inquestionável de visão pragmática. Neste sentido, “salvar o sistema” para The Economist equivale à identificação totalmente acrítica da revista com a operação de resgate económico ilimitado, e a defesa incontestável do mesmo, – a ser cumprida sem quaisquer meios que se afastem dos habitualmente mais dogmaticamente glorificados “recursos do mercado” – em favor do perturbado sistema capitalista. Assim, mesmo os mais queridos e bem testados dogmas da propaganda (de um não só não existente livre mercado, que na realidade nunca existiu) podem agora ser atirados borda fora pela nobre causa de “Salvar o sistema”. Consequentemente, conta-nos The Economist que

“A economia mundial está claramente com um aspecto fraco, mas ela poderá ficar bem pior. Este é o momento de colocar dogma e política de lado e concentrar em respostas pragmáticas. Isto significa mais intervenção governamental e cooperação no curto prazo, mais do que os contribuintes, políticos ou na verdade os jornais do mercado livre normalmente gostariam “. [1]

Nós fomos presenteados anteriormente com sermões semelhantes do presidente George W. Bush. Ele disse na sua intervenção na televisão há duas semanas que normal e instintivamente ele é crente e apoiante apaixonado do mercado livre, mas sob as actuais circunstâncias excepcionais ele deve pensar noutros caminhos. Ele deve começar a pensar sob estas difíceis circunstâncias, ponto final. Não podemos dizer que não fomos prevenidos.

As somas envolvidas na recomendada solução “pragmática”, as quais advogam varrer para o lado as “preferências normais” dos “contribuintes e jornais do mercado livre ” (isto é, da solução agora defendida a qual significa, na verdade, a necessária submissão das grandes massas do povo a fardos fiscais crescentes, mais cedo ou mais tarde) são literalmente astronómicas. Para citar The Economist mais uma vez: “em pouco mais de três semanas o governo da América, como foi dito, expandiu seu passivo bruto em mais de 1 milhão de milhões de dólares – quase o dobro do custo da guerra do Iraque até agora “[2] “Bancos americanos e europeus perderão cerca de 10 milhões de milhões” de dólares [3]. “Mas a história ensina uma lição importante: que as grandes crises bancárias são essencialmente resolvidas pelo lançamento de grandes blocos de dinheiro público” [4].

Dezenas de milhões de milhões de dinheiro público “dado”, e justificado em nome da alegada “importante lição da história”, e naturalmente ao serviço da incontestável boa causa de salvar o sistema, isto é certamente um bloco muito grande. Nenhum vendedor ambulante de gelados poderia alguma vez sonhar com tais blocos. E se acrescentarmos àquela grandeza o facto citado na mesma página da revista de Londres, que só no decorrer do ano passado “o índice de preços dos alimentos de The Economist subiu aproximadamente 55%” [5] e “A alta dos preços dos alimentos no fim de 2007 e princípio de 2008 provocou tumultos em 30 países” [6] , nesse caso o bloco em causa torna-se ainda mais revelador quanto à natureza do sistema que agora se encontra, ele próprio, numa crise sempre a aprofundar-se.

Pode alguém pensar numa maior acusação para um sistema de produção económica e reprodução social pretensamente inultrapassável do que esta de que – no máximo do seu poder produtivo – está a produzir uma crise alimentar global, e o sofrimento dos incontáveis milhões inseparáveis disto por todo o mundo? Esta é a natureza do sistema que se espera salvar agora a todo custo, incluindo a actual “repartição” do seu custo astronómico.

Como pode alguém ter alguma ideia tangível de todos os milhões de milhões desperdiçados? Uma vez que estamos a falar acerca de grandezas astronómicas, pus esta pergunta a um amigo que é professor de Astrofísica na Universidade de Londres. A sua resposta foi que eu deveria assinalar que um milhão de milhões (trillion) apenas é aproximadamente uma centena de vezes a idade do nosso universo. Agora, na escala da mesma grandeza, o número oficial habitualmente subestimado da dívida americana, por si própria, monta nos nossos dias a mais de 10 milhões de milhões. Isto é, um milhar de vezes a idade do nosso universo.

Mas deixem-me citar um curto trecho de uma publicação japonesa. Lê-se isto:

“Quanto dinheiro especulativo está a movimentar-se pelo mundo? Segundo uma análise da Mitsubishi UFJ Securities, a dimensão da “economia real” global, na qual bens e serviços são produzidos e comercializados, é estimada em 48,1 milhões de milhões de dólares… Por outro lado, a dimensão da «economia financeira» global, o montante total de acções, títulos e depósitos, eleva-se a 151,8 milhões de milhões de dólares. Portanto, a economia financeira inchou mais de três vezes relativamente à dimensão da economia real, crescendo rapidamente durante as últimas duas décadas. O fosso é tão grande como 100 milhões de milhões de dólares. Um analista envolvido nesta estimativa disse que cerca da metade deste montante, 50 milhões de milhões de dólares, mal é chega para a economia real. Cinquenta milhões de milhões de dólares valem bem mais de 5.000 milhões de milhões de yen, um número demasiado grande para eu realmente compreender”. [7]

Na verdade é mesmo muito difícil compreender, quanto mais justificar, como fazem os nossos políticos e banqueiros apologistas do capital, as somas astronómicas de especulação parasitária acumulada numa grandeza correspondente a 500 mil vezes a idade do nosso universo. Se quiser uma outra medida sobre a grandeza em causa, imagine apenas um infeliz contabilista dos tempos romanos, a quem fosse pedido nada mais do que simplesmente escrever no seu quadro negro o número de 5.000 milhões de milhões de yen em algarismos romanos. Ele cairia em desespero total. Simplesmente não poderia fazer isso. E mesmo que tivesse à sua disposição algarismos arábicos, que não poderia ter tido, mesmo neste caso precisaria 17 zeros após o número 5 a fim de registar a cifra em causa.

O perturbante, contudo, é que os nossos políticos e banqueiros endinheirados parecem pensar apenas nos zeros, e não nas suas ligações substantivas, quando apresentam estes problemas para consumo público. E esta abordagem provavelmente não pode funcionar indefinidamente. Pois é preciso muito mais do que zeros para escapar do buraco sem fundo do endividamento global a que estamos condenados pelo sistema que eles agora querem salvar a todo custo.

Na realidade, a recente popularidade de Gordon Brown tem uma grande relação com zeros em mais de uma forma. A sua espantosa nova popularidade – que, bem pensado, pode acabar por ser um tanto efémera – foi demonstrada na semana passada pela manchete de primeira página: “From Zero to Hero” (”De zero a herói”). O artigo em questão sugeria que o nosso primeiro-ministro realmente teve êxito em “salvar o sistema”. Aqui está como ele ganhou a grande aclamação.

A razão porque ele foi louvado desse modo, como um herói, foi ter inventado uma nova variedade de nacionalização da bancarrota capitalista, a ser adoptada com imperturbável “consciência de mercado livre” também por outros países. Aquilo fez até mesmo com que George W. Bush se sentisse menos culpado por actuar contra o seu auto-proclamado “instinto apaixonado” quando nacionalizou um enorme “bloco” da bancarrota capitalista estado-unidenses do qual um único item – os passivos das companhias hipotecárias gigantes Fannie Mae e Freddie Mac – montavam a 5,4 milhões de milhões de dólares (o que quer dizer, a soma necessária para 54 anos de execução da guerra do Iraque).

A “novidade pragmática” – oposta “ao dogma e à política” nas palavras de The Economist – da recente nacionalização da bancarrota capitalista pelo “New Labour” é que os contribuintes não obtiveram absolutamente nada (por outras palavras, zero-zero-zero quantas vezes queira escrever, mesmo dezassete vezes) pelas imensas somas de dinheiro investido em activos capitalistas fracassados, incluindo nossos bancos britânicos nacionalizados a dois terços. Esta espécie de nacionalização da bancarrota capitalista é algo diferente das versões anteriores, instituídas após a Segunda Guerra Mundial quando a “Cláusula 4″ do Partido Trabalhista – a defender o controle público dos meios de produção – ainda fazia parte da sua Constituição. Pois em 1945 os nacionalizados sectores em bancarrota da economia capitalista foram transferidos para o controle do Estado, e enquanto durou, foram generosamente engordados outra vez a partir da tributação geral com o objectivo da adequada “privatização” no devido momento.

Mesmo a nacionalização da Rolls Royce Company em 1971, sob o primeiro-ministro conservador Edward Heath, seguiu o mesmo padrão embaraçoso de nacionalização abertamente admitida e controlada pelo Estado. Nos nossos dias, contudo, a beleza da solução de Gordon Brown é que remove o embaraço enquanto multiplica muitas vezes os milhares de milhões desperdiçados ao investir na bancarrota capitalista. Certamente ele merece plenamente a sua promoção de “De zero a herói” bem como o máximo louvor de “Salvador do mundo” que lhe foi conferida por alguns outros jornais, devido à sua grande modéstia de ficar satisfeito com o zero absoluto em troca dos nossos – não dos seus – milhares de milhões generosamente dispensados. Mas poderá esta espécie de remédio governamental ser considerada uma solução perdurável para os nossos problemas mesmo em termos de curto prazo, para não mencionar a sua necessária sustentabilidade a longo prazo? Só os loucos poderiam acreditar nisso.

Na verdade, a recentes medidas adoptadas pelas nossas autoridades políticas e financeiras apenas atenderam a um único aspecto da crise actual: a liquidez dos bancos, das companhias de hipotecas e de seguros. E mesmo isso só numa extensão muito limitada. Na realidade as enormes “dádivas de blocos” não representam senão o pagamento dos depósitos, por assim dizer. Muito mais será necessário também quanto a isto no futuro, como as perturbações ainda em desenvolvimento no mundo dos mercados de acções continuam a enfatizar.

Contudo, bem além do problema da liquidez, uma outra dimensão apenas da crise financeira refere-se à quase catastrófica insolvência dos bancos e das companhias de seguros. Este facto torna-se claro quando os seus passivos assumidos especulativa e irresponsavelmente, mas nem por isso menos existentes, são realmente levados em conta. Para dar apenas um exemplo: dois dos nossos grandes bancos na Grã-Bretanha têm passivos que montam a 2,4 milhões de milhões de dólares cada um, adquiridos sob a suposição aventureira de que eles nunca terão de ser cumpridos. Pode o Estado capitalista salvá-los com êxito perante um passivo dessa dimensão? Onde poderia o Estado pedir dinheiro emprestado nestes montantes para a operação de resgate necessária para tal finalidade? E o que seriam as necessárias consequências inflacionárias de “repartir tais blocos” da operação de resgate verdadeiramente gigantesca ao simplesmente imprimir o dinheiro requerido na ausência de outras soluções?

Além disso, os problemas não se esgotam de modo algum no perigoso estado do sector financeiro. Pois de modo ainda mais intratável, também os sectores produtivos da indústria capitalista estão com sérios problemas, pouco importando quão altamente desenvolvida e favorecida eles possam parecer estar através da sua posição de vantagem competitiva na hierarquia global do capital transnacional. Devido ao nosso tempo limitado, devo limitar-me a um exemplo, mas muito significativo. Refere-se à indústria automóvel dos Estados Unidos, altamente humilhada nos últimos anos, apesar de todos os subsídios recebidos do mais poderoso Estado capitalista no passado, que se contam em muitos milhares de milhões de dólares.

Deixem-me citar de um artigo publicado sobre a Ford Corporation e suas fantasias globalizantes em 1994, publicado no The Sunday Times. Foi assim que os nossos distintos jornalistas financeiros pintaram naqueles tempos a sua rósea pintura:

“A globalização plena está a ser tentada pelas multinacionais… «Isto é definitivamente o bébé de Trotman, disse uma fonte americana». «Ele tem uma visão do futuro, que diz que, para ser um vencedor global, a Ford deve ser uma corporação verdadeiramente global”. Segundo Trotman, que disse ao The Sunday Times em Outubro de 1993, “Como a competição automotivadora se torna mais global, ao entrarmos no próximo século, a pressão para descobrir economias de escala tornar-se-á cada vez maior. Se, ao invés de fazer dois motores de 500 mil unidades cada um, pudermos fazer um milhão de unidades, então os custos são muito mais baixos. Em última análise haverá um punhado de actores globais e o resto não estará ali ou estarão a lutar para sobreviver». Trotman e seus colegas concluíram que a plena globalização é o caminho para bater competidores como os japoneses e, na Europa, o arqui-rival da Ford, a General Motors, a qual mantém uma vantagem de custo sobre a Ford. A Ford também acredita que precisa da globalização para capitalizar em mercados emergentes no Extremo Oriente e na América Latina”. [8]

Portanto, a “única” coisa que Alex Trotman – o britânico que era presidente da Ford Corporation naquele tempo – se esqueceu de considerar, apesar da sua impecável qualificação aritmética de saber a diferença entre 500 mil e 1 milhão, foi isto: o que acontece quando não podem vender 1 milhão (e muitas vezes mais) motores de carros, apesar da estrategicamente contemplada e desfrutada vantagem de custo. No caso da Ford Corporation, mesmo a maciça taxa de exploração diferencial que a companhia podia impor à escala mundial como enorme companhia transnacional – isto é, pagar por exactamente o mesmo trabalho 25 vezes menos aos trabalhadores da “Ford Philippines Corporation”, por exemplo, do que à sua força de trabalho nos Estados Unidos da América – mesmo esta vantagem inquestionável não podia ser considerada suficiente para assegurar uma saída desta contradição fundamental.

É aqui que estamos hoje, não só no caso da gravemente humilhada Ford Corporation como também no da General Motors, independentemente da sua vantagem de custo, outrora profundamente invejada até pela Ford Corporation dos Estados Unidos.

Ao falar acerca de um acordo recentemente estabelecido que proporciona subsídios do Estado americano às companhias gigantes de automóveis do país, eis como a infeliz situação actual da indústria automobilística estado-unidense é descrita num dos últimos números de The Economist: “o acordo significa que as companhias de automóveis – abençoadas com a garantia do governo – deveriam obter empréstimos com uma taxa de juro de cerca de 5% ao invés dos 15% que enfrentam hoje nas actuais condições do mercado aberto “[9].

Contudo, nenhum montante de subsídio de qualquer espécie pode ser considerado suficientemente satisfatório, porque as “Três Grandes” – General Motors, Ford e Chrysler – estão à beira da bancarrota, apesar do bébé do sonho de Trotsman ser agora um adolescente plenamente desenvolvido. Portanto The Economist deve admitir que

“A partir do momento em que subsídios industriais como este começam a fluir, é difícil pará-los. Um estudo recente do Cato Institute, um think-tank de extrema-direita, descobriu que o governo federal gastou cerca de 92 mil milhões de dólares a subsidiar negócios só em 2006. Deste total, apenas 21 mil milhões foram para agricultores, grande parte do resto foi para empresas como a Boeing, a IBM e a General Electric sob a forma de crédito de apoio à exportação e vários subsídios de investigação.

Os Três Grandes já se queixam de que levará demasiado tempo repartir o dinheiro [do Estado], e querem acelerar o processo. Também querem outros 25 mil milhões de dólares, possivelmente ligados à segunda versão da lei de resgate da Wall Street. A lógica do salvamento de Wall Street é que as finanças servem de base para tudo. Detroit não pode começar a fazer tal reivindicação. Mas, se o seu lobbying tiver êxito, será que demorará muito para que as aflitas companhias de aviação e retalhistas fracassados se juntem à fila?” [10]

A imensa expansão especulativa do aventureirismo financeiro, especialmente nas últimas três ou quatro décadas, é naturalmente inseparável do aprofundamento da crise dos ramos produtivos da indústria e as resultantes perturbações que se levantam com a absolutamente letárgica acumulação de capital (e na verdade acumulação fracassada) naquele campo produtivo da actividade económica. Agora, inevitavelmente, também no domínio da produção industrial a crise está a ficar muito pior.

Naturalmente, a consequência necessária da crise sempre em aprofundamento nos ramos produtivos da “economia real”, como eles agora começam a chamá-la e a contrastar a economia produtiva com o aventureirismo especulativo financeiro, é o crescimento do desemprego por toda a parte numa escala assustadora, e a miséria humana a ele associada. Esperar uma solução feliz para estes problemas vinda das operações de resgate do estado capitalista seria uma grande ilusão.

Este é o contexto em que os nossos políticos deveriam realmente começar a prestar atenção à afirmada “importante lição da história”, ao invés de “distribuir grandes blocos de dinheiro público” sob a pretensa “lição da história”. Pois como resultado do desenvolvimento histórico sob a regra do capital na sua crise estrutural, na nossa própria época atingimos o ponto em que devemos ser sujeitos ao impacto destrutivo de uma sempre a piorar simbiose entre a estrutura legislativa do estado da nossa sociedade e o material produtivo bem como da dimensão financeira da ordem reprodutiva societária estabelecida.

Compreensivelmente, aquele relacionamento simbiótico pode ser, e frequentemente também acontece ser, administrado com práticas absolutamente corruptas pelas personificações privilegiadas do capital, tanto nos negócios como na política. Pois, não importa quão corruptas possam ser tais práticas, elas estão plenamente em sintonia com os contra-valores institucionalizados pela ordem estabelecida. E – dentro da estrutura da simbiose prevalecente entre o campo económico e as práticas políticas dominantes – eles são legalmente bastante permissíveis, graças ao mais dúbio e muitas vezes mesmo claramente anti-democrático papel facilitador da selva legislativa impenetrável proporcionada pelo Estado também no domínio financeiro.

A fraude, numa grande variedade das suas formas práticas, é a normalidade do capital. As suas manifestações extremamente destrutivas não estão de modo algum confinadas à operação do complexo militar-industrial. Nesta altura o papel directo do Estado capitalista no mundo parasitário das finanças é não só fundamentalmente importante, em vista da sua grandeza que tudo permeia, como tivemos de descobrir com chocante clareza durante as últimas semanas, mas também potencialmente catastrófico.

O facto embaraçoso é que companhias hipotecárias gigantes dos EUA, como a Fannie Mae e o Freddie Mac, foram corruptamente apoiadas e generosamente abastecidas com garantias altamente lucrativas mas totalmente imerecidas pela selva legislativa do Estado americano em primeiro lugar, bem como através de serviços pessoais de corrupção política não punida. Na verdade, a cada vez mais densa selva legislativa do Estado capitalista passa por ser o legitimador “democrático” da fraude institucionalizada nas nossas sociedades. Os editores e jornalistas de The Economist estão de facto perfeitamente familiarizados com as práticas corruptas pelas quais, no caso das companhias hipotecárias gigantes americanas, receberam do seu Estado tratamento descaradamente preferencial [aqui cito The Economist ] o que

“permitiu à Fannie e ao Freddie operarem com minúsculos montantes de capital. Os dois grupos tinham núcleos de capital (como definido pelo seu regulador) de 83,2 mil milhões de dólares no fim de 2007, isto suportava 5,2 milhões de milhões de ólares de dívidas e garantias, um rácio de 65 para um. [!!!] Segundo a CreditSights, um grupo de investigação, a Fannie e o Freddie foram contrapartes em valores de 2,3 milhões de milhões de dólares de transacções com derivativos, relacionadas com as suas actividades de hedging. Nunca seria permitido a um banco privado ter um tal balanço, [11] nem isto o qualificaria para a máxima classificação de crédito AAA… Eles utilizaram o seu financiamento barato na compra de activos de rendimento mais alto. [12]

Com tanto em jogo, não é de admirar que as companhias tenham construído uma formidável máquina de lobbying. Foram dados empregos a ex-políticos. Os críticos podiam esperar uma cavalgada robusta. As companhias não podiam morder as mãos que as alimentavam”. [13]

Não poder “morder as mãos que as alimentavam” refere-se, naturalmente, ao corpo legislativo do Estado americano. Mas por que deveriam elas ter medo? Pois companhias tão gigantescas constituem uma simbiose total com o Estado capitalista. Isto é um relacionamento que corruptamente se reafirma também em termos do pessoal envolvido, através do acto de contratar políticos que poderiam servi-los preferencialmente, com um impressionante “rácio de de 65 para um” e a associada classificação de crédito AAA, mesmo de acordo com a relutante confissão de The Economist.

A gravidade da presente situação é sublinhada de um modo característico pela circunstância relatada nestas palavras por The Economist: ” traders no mercado de credit-default swaps começaram recentemente a fazer apostas sobre o impensável: que a América pode incumprir a sua dívida ” [14]. Naturalmente, os referidos traders reagem mesmo a eventos de tal carácter e gravidade como os que experimentamos hoje da única maneira possível: a espremer lucro disto.

O grande problema para o sistema capitalista global é, contudo, que o incumprimento da América não é de todo impensável. Pelo contrário, ele é – e tem sido desde há muito – uma certeza que se aproxima. Foi por isso que escrevi há muitos anos (em 1995, para ser preciso que:

“Num mundo de insegurança financeira nada se adequa melhor à prática de jogar com somas astronómicas e criminosamente não seguradas nas bolsas de valores do mundo – prenunciando um tremor de terra de magnitude 9 ou 10 na “Escala de Richter” Financeira – do que chamar às empresas que se dedicam a tais jogos ” Securities Management”;… Quando exactamente e de que forma – pode haver muitas variedades, mais ou menos brutais – os EUA incumprirão a sua dívida astronómica não se pode ver neste momento. Só pode haver duas certezas a este respeito. A primeira é que a inevitabilidade do incumprimento americano afectará profundamente toda a gente neste planeta. E a segunda, que a posição de potência hegemónica preponderante dos EUA continuará a ser afirmada de todas as formas, de modo a fazer o resto do mundo pagar pela dívida americana por tanto tempo quanto seja capaz de fazê-lo”. [15]

Naturalmente, a condição agravada de hoje é que o resto do mundo – mesmo com a historicamente muito irónica maciça contribuição chinesa para a balança do Tesouro americano – é cada vez menos capaz de preencher o “buraco negro” produzido numa escala sempre crescente pelo insaciável apetite da América por financiamento da dívida, como demonstrado pelas repercussões globais da recente crise hipotecária e bancária dos EUA. Esta circunstância traz o necessário incumprimento da América, numa das “variedades mais ou menos brutais”, para muito mais perto.

A verdade desta matéria perturbante é que pode não haver saída para estas contradições finalmente suicidas, as quais são inseparáveis do imperativo da infindável expansão do capital, independentemente das consequências – arbitrária e mistificadoramente confundido com crescimento como tal – sem mudar radicalmente o nosso modo de reprodução social metabólico através da adopção de práticas responsáveis e racionais muito necessárias da única economia viável, [16] orientada pela necessidade humana, ao invés do alienante, desumanizante e degradante lucro.

É aqui que o obstáculo esmagador das interdeterminações em causa própria do capital devem ser confrontadas, não importa quão difícil isto deva ser sob as condições prevalecentes. Pois a absolutamente necessária adopção e o apropriado desenvolvimento futuro da única economia viável é inconcebível sem a transformação radical da própria ordem socioeconómica e política estabelecida.

Gordon Brown recentemente exprimiu o seu desgosto acerca do “capitalismo sem peias”, em nome da totalmente não especificada “regulação”. Podemos recordar que Gorbachev, também, queria uma espécie de capitalismo regulado, sob o nome de “socialismo de mercado”, e também deve saber o que lhe aconteceu e à sua grotesca fantasia. Por outro lado, na expressão do primeiro-ministro conservador britânico Edward Heath, há muito tempo atrás, o mesmo pecado do “capitalismo sem restrições” era “a face inaceitável do capitalismo”. E apesar disso, o “capitalismo sem peias”, apesar da sua “face inaceitável”, permaneceu todas estas décadas não só “aceitável” como – no decorrer do seu novo desenvolvimento – tornou-se muito pior. Pois o fundamento causal dos nossos problemas cada vez mais sérios não é a “face inaceitável do capitalismo não regulamentado” mas a sua substância destrutiva. É aquela substância opressora que deve resistir e anular todos os esforços destinados a restringir o sistema do capital mesmo minimamente – como, na verdade, realmente se verificou ao efectuar isso também na forma de metamorfose, na Grã-Bretanha, do [partido] social-democrata “Old Labour” no neoliberal “New Labour”. Consequentemente, a fantasia periodicamente renovada de regular o capitalismo de um modo estruturalmente significativo só pode resultar numa tentativa de dar nós com os ventos.

Mas a última coisa de que hoje precisamos é de continuar a dar nós com os ventos, quando temos de enfrentar a gravidade da crise estrutural do capital, que exige a instituição de uma mudança sistémica radical. É revelador do carácter incorrigível do sistema do capital que mesmo num momento como este, quando a imensa grandeza da crise em desenvolvimento já não pode mais ser negada pelos mais devotos apologistas ex officio do sistema – uma crise descrita há poucos dias por nada menos que o vice-governador do Banco da Inglaterra como a maior crise económica em toda a história humana – e nada pode ser contemplado, para não dizer realmente feito, a fim de mudar os defeitos fundamentais de uma ordem reprodutiva societária cada vez mais destrutiva por parte daqueles que controlam as alavancas económicas e políticas da nossa sociedade.

Em contraste com a recente iluminação do seu próprio vice, o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, não tinha quaisquer reservas acerca da saúde do acarinhado sistema capitalista, nem teve ele a mínima antecipação da chegada de uma crise quando louvou aos céus o livro de Martin Wolf, apologético do capital, com o seu auto-complacente e peremptoriamente assertivo título: Porque a globalização funciona. Ele considerou aquele livro “uma devastadora crítica intelectual dos oponentes da globalização” e uma “civilizada, sábia e optimista visão do nosso futuro económico e político”[17]. Agora, todos são forçados a terem pelo menos alguma preocupação acerca da verdadeira natureza e das necessárias consequências destrutivas da dogmaticamente saudada globalização capitalista.

Naturalmente, a minha própria atitude para com o livro de Wolf foi muito diferente daquela de Mervyn King e outros que partilhavam os mesmos interesses. Comentei na altura da sua publicação que

“o autor, que é o Comentador Chefe de Ciência Económica do Financial Times de Londres, esquece-se de colocar a questão realmente importante: Para quem ele trabalha?, se é que trabalha. Ele certamente trabalha, por enquanto, e de forma alguma tão bem, para os decisores do capital transnacional, mas não para a esmagadora maioria da espécie humana que deve sofrer as consequências. E nenhuma quantidade da “integração jurisdicional” defendida pelo autor – isto é, em bom inglês, o controle directo mais apertado dos “demasiados Estados” deplorados por um punhado de potências imperialistas, especialmente a maior delas – vai conseguir remediar a situação. A globalização capitalista na realidade não funciona e não pode funcionar. Pois ela não pode ultrapassar as contradições irreconciliáveis e os antagonismos manifestos da crise global estrutural do sistema. A própria globalização capitalista é a manifestação contraditória daquela crise, tentando subverter o relacionamento causa/efeito numa vã tentativa de sanar alguns efeitos negativos por outros efeitos desejados que projecta, porque é estruturalmente incapaz de tratar das suas causas “. [18]

Neste sentido, as recentes tentativas de conter os sintomas da crise que se intensificam, pela cinicamente camuflada nacionalização de grandezas astronómicas da bancarrota capitalista, através dos recursos do Estado ainda a serem inventados, só poderia sublinhar as determinações causais antagónicas profundamente enraizadas da destrutividade do sistema capitalista. Pois o que está fundamentalmente em causa hoje não é simplesmente uma crise financeira massiva mas o potencial de auto-destruição da humanidade neste momento do desenvolvimento histórico, tanto militarmente como através da destruição em curso da natureza.

Apesar da manipulação concertada de taxas de juro e das recentes cimeiras ocas dos países capitalistas dominantes, nada foi perduravelmente alcançado com o “lançamento de gigantescos blocos de dinheiro” no buraco sem fundo do “esmagado” mercado financeiro global. A “resposta global abrangente para o fosso da confiança”, como o desejo projectado de The Economist e dos seus mestres, pertence ao mundo da (não tão pura) fantasia. Pois um dos maiores fracassos históricos do capital, como o há muito estabelecido modo de controle social metabólico, é a contínua predominância dos Estados-nação potencialmente mais agressivos, e a impossibilidade de instituir o estado do sistema do capital como tal na base dos antagonismos estruturalmente arraigados do sistema do capital.

Imaginar que dentro da estrutura de tais determinações causais antagonistas possa ser encontrada uma solução harmoniosa permanente para o aprofundamento da crise estrutural de um sistema de produção e de trocas mais iníquo – o qual está agora empenhado activamente em produzir mesmo uma crise alimentar global, por cima de todas as suas outras contradições gritantes, incluindo a sempre mais difusa destruição da natureza –, sem mesmo tentar remediar suas miseráveis iniquidades, é a pior espécie de pensamento ilusório, rondando a irracionalidade total. Pois, auto-contraditoriamente, ele quer reter a ordem existente apesar das suas necessárias iniquidades explosivas e antagonismos. E a chamada “integração jurisdicional dos estados em demasia” sob uns poucos auto-indicados, ou um, como advogado por alguns apologistas do capital, pode apenas sugerir a – igualmente auto-contraditória – permanência da potencialmente suicida dominação imperialista global.

Eis porque Marx é mais relevante hoje do que alguma vez já o foi. Pois apenas uma mudança sistémica radical pode proporcionar a esperança historicamente sustentável e a solução para o futuro.

Notas:

[1] Todas estas citações foram retiradas do mesmo editorial de The Economist, 11/Outubro/2008, p. 13.
[2] The Economist, 11 October 2008, special section, p. 3.
[3] Ibid.
[4] Ibid., p. 4.
[5] Ibid.
[6] Ibid., p. 6.
[7] Shii Kazuo in Japan Press Weekly, Special Issue, October 2008, p. 20.
[8] “Ford prepares for global revolution”, by Andrew Lorenz and Jeff Randall. The Sunday Times, 27 March 1994, Section 3, p. 1.
[9] “A bail-out that passed. In the slipstream of Wall’street’s woes, the Big Three land a huge subsidy.” The Economist, October 4th, 2008, p. 82.
[10] Ibid., p. 83.
[11] A Lehman Brothers, um dos principais private merchant banks, tem um rácio de alavancagem de 30 para 1. Isso é bastante mau.
[12] “Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions” , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[13] “A brief family history: Toxic fudge” , The Economist, July 19-25, 2008, p. 84.
[14] “Fannie Mae and Freddie Mac: End of illusions”, The Economist, July 19-25, 2008, p. 85.
[15] “The Present Crisis”, quoted from Part IV. of Beyond Capital (published in London in 1995), pp.962-3. (In Spanish in Más allá del capital, Vadell Hermanos Editores , Caracas, 2001, pp. 1111-12.)
[16] Ver a este respeito: “Qualitative Growth in Utilization: The Only Viable Economy”, Secção 9.5 do meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time , Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 272-93. (Publicado in Herramienta, Numbers 36 and 37.)
[17] Mervyn King’s endorsement, on the back cover of Martin Wolf’s book, Why Globalization Works , Yale University Press, 2004.
[18] In “Education - Beyond Capital”, Opening Lecture delivered at the Fórum Mundial de Educação, Porto Alegre, July 28, 2004. In Spanish reprinted in La educación más allá del capital , Siglo Veintiuno Editores / Clacso Coediciones, Rio de Janeiro, 2008. Ver também o capítulo: “Why Capitalist Globalization Cannot Work?” no meu livro, The Challenge and Burden of Historical Time, Monthly Review Press, New York, 2008, pp. 380-398; Spanish edition: El desafío y la carga del tiempo histórico, Vadell Hermanos Editores / Clacso Coediciónes, Caracas, 2008, pp. 371-389.

Texto de uma conferência proferida em Conway Hall, Londres, a 21 de Outubro de 2008 e publicada em Herramienta, donde foi traduzido.

* Istvan Meszaros é amigo e colaborador de odiario.info

http://www.odiario.info/index.php?p=960